Baralho de Ideias

Quem ganhar uma vaza dará início à seguinte.

Presente no Futuro – Temos menos filhos porque estamos a empobrecer e somos mais egoístas?

Presente no Futuro: os portugueses em 2030” será um encontro de reflexão sobre as perspectivas de evolução de Portugal nas próximas duas décadas, abordando questões demográficas, populacionais, territoriais e sociais. O evento irá realizar-se de 14 a 15 de Setembro no Centro de Cultural de Belém. As sessões organizam-se em debates sobre questões cruciais para a sociedade portuguesa.

Temos menos filhos porque estamos a empobrecer e somos mais egoístas?

É inegável que actualmente as famílias têm menos filhos. Em Portugal, uma mulher nascida em 1930 teria uma elevada probabilidade de aos 50 anos (ou seja, em 1980) ter três filhos, enquanto uma mulher nascida em 1960 teria uma grande possibilidade de aos 50 anos (ou seja, em 2010) ter dois filhos. É bastante provável que as mulheres que actualmente se encontram no auge das capacidades reprodutivas tenham ainda menos filhos quando completarem cinco décadas de vida. Embora tenhamos um dos níveis de fecundidade mais baixos da Europa, somos dos países em que é mais comum uma pessoa finalizar o período reprodutivo com pelo menos um filho. Ou seja, o fenómeno do filho único é particularmente incidente em Portugal.

Isto deve-se ao facto de estarmos a empobrecer? A ideia é descabida. Não é necessário recorrer a dados estatísticos para demonstrar que o poder de compra da população tem, na verdade, aumentado ao longo das últimas décadas. Podemos, sim, falar no incremento dos custos de oportunidade em ter um filho e da predisposição dos pais em apostarem numa descendência mais qualitativa e menos quantitativa, portanto numa educação mais “cara”.

Temos menos filhos porque somos mais egoístas? Sim, é verdade. Contudo, o termo utilizado é demasiado hostil. As pessoas têm menos filhos para assegurar um determinado estilo ou nível de vida familiar ou individual. Nascem menos crianças porque hoje (felizmente) há maior liberdade e menor pressão social. É tão legítimo ter muitos como poucos filhos, assim como por idealizar não ter qualquer um.

A consequência do declínio da fecundidade é o envelhecimento populacional. Isto representa realmente um problema? Por sermos mais velhos há o risco de (ainda) sermos menos produtivos? Há décadas que o Japão é dos países mais envelhecidos do mundo. O problema está na sustentabilidade da segurança social? Se mantivermos o sistema contributivo será de facto um grande problema. Porque não apostar num sistema de capitalização? O problema está na diminuição da população activa? Se estamos longe de um contexto de pleno emprego, do que nos serve querermos mais potenciais desempregados? A população de Portugal vai diminuir. Isso implica que o mercado e o consumo interno vão declinar? O que é feito, então, de países como a Islândia e o Luxemburgo que têm menos de 1 milhão de habitantes?

Vários inquéritos sobre preferências e ideais reprodutivos, aplicados a Portugal, têm demonstrado que, em média, os portugueses não querem ter mais do que dois filhos. Ou seja, na melhor das hipóteses não vamos ter um número médio de filhos suficiente para contornar o envelhecimento demográfico. Deve-se interferir com a liberdade das pessoas e forçar a população a ter mais filhos do que deseja à custa da manutenção de uma ideologia política?

Sessão “Temos menos filhos porque estamos a empobrecer e somos mais egoístas?”, dia 14 de Setembro às 16:50 com Pedro Telhado Pereira (Universidade da Madeira) e Alexandre Quintanilha (Instituto de Investigação e Inovação em Saúde).

About David Cruz

Demógrafo no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

3 comments on “Presente no Futuro – Temos menos filhos porque estamos a empobrecer e somos mais egoístas?

  1. Father John Misty
    15 Setembro 2012

    Não vale a pena falar das últimas décadas, mas sim dos últimos dez anos, em matéria de poder de compra e disponibilidade financeira para começar ou aumentar uma família; o que se ganhou há vinte anos, perdeu-se nos últimos dez. Sim, as pessoas, tirando gente inconsciente ou aqueles que são muito ricos, retraem-se de compromissos em matéria de natalidade em alturas de crise; não estão para repetir as histórias de horror que ouviam dos pais e avós, o que leva, isso sim, numa aposta em ter menos filhos, mas melhor educados.
    Ninguém com dois dedos de testa vai parir para depois ter uma vida (ainda) mais miserável, a Fundação Pingo Doce que perceba isso.

    Egoísmo? Nalguns casos, sim; noutros, nem por isso. O termo tresanda demasiado a baboseiras da Igreja e de gentalha como Mota Amaral, que, por sinal, nunca teve filhos (ele há coisas, pá). Muitas vezes, há é egoísmo da entidade patronal ou porque a profissão que se exerce é já de si exigente em matéria de disponibilidade. Malefícios da sociedade moderna.
    Ainda que seja inegável que a mentalidade consumista e demasiado virada para o imediato é uma influência nas variáveis da fecundidade e natalidade, a maioria das pessoas continua a querer seguir um rumo dito normal nas suas vidas – estudos e/ou trabalho, casamento e constituição de família. O sentimento de que as gerações carecem de continuação continua a ser predominante.

    Não me parece que haja falta de gente para o futuro, sinceramente. Com estabilidade económica e laboral, as pessoas poderão planear o futuro como antigamente se fazia, gerando filhos e renovando as gerações. Porém, na presente situação, com emigração e desconfiança em relação ao futuro, não é de bom senso criar ou aumentar a família sem um planeamento muito cuidadoso. Mais: se cada jovem que está desempregado ou em sub-emprego tiver as condições mencionadas “supra”, é óbvio que os resultados serão muito melhores, salvo problemas de saúde que impeçam o normal curso das coisas.

    Convinha era responsabilizar as pessoas: a ser verdade que houve mulheres a abortar mais de dez vezes desde que a presente lei entrou em vigor, impõe-se que haja limites, senão andamos a pagar para matar. E sou “pró-escolha”, ainda por cima, mas não “pró-irresponsabilidade”.

    Sem economia minimamente saudável não é possível manter Portugal vivo, o resto é conversa. No que concerne a sua tese, a título de exemplo, gostei bastante das conclusões sobre o Baixo Mondego e o Alentejo e renovação de gerações nessas áreas; embora não seja grande fã da FCSH, devo dizer que são conclusões destas e consequente destruição de mitos propalados pelos ignorantes que se dizem jornalistas, que dão prestígio a instituições e investigadores.
    Receio é que não lhe tenham dado o espaço de que necessitava para fazer uma tese ainda maior e melhor; bolonhesa versão Mariano Gago, o imbecil, a funcionar.

    Cumprimentos,

    FJM

  2. Father John Misty
    15 Setembro 2012

    Já agora, se os tais “milhões de jovens que deveriam ter nascido” entre 1982 e 2001 estivessem de facto vivos, que raio teríamos nós para lhes dar hoje em dia? Não sendo Malthusiano, não quero pensar no desastre social e económico que isso seria.
    As Nações Unidas também já se calavam com o ser humano 7 biliões, que não é consensual que tenha já nascido.
    Por fim, o que disse sobre responsabilidade sexual por cá também se aplica aos estrangeiros: não tenham filhos que não podem criar, porque, da minha parte, não tenho complexos coloniais nem históricos e não pago a irresponsabilidade e o preconceito de quem é atrasado culturalmente. Usem o preservativo, que eu também uso, SFF. O planeta e seus recursos agradecem.
    Ou então sujeitem-se a todo o tipo de miséria e agressões da natureza e do Homem.

    • F. David Cruz
      16 Setembro 2012

      FJM,
      Obrigado pelo comentário e opiniões que enriqueceram esta página. Somente acrescentaria que não precisamos tanto de perseguir o fim da renovação de gerações, mas simplesmente as preferências reprodutivas das pessoas.
      Fiquei satisfeito por ter apreciado essas conclusões relativas à minha tese, acabando por ilustrar que o trabalho que desenvolvi não ficou, de todo, na “gaveta”. Felizmente, tive a oportunidade de continuar a desenvolver investigação no campo da fecundidade, sendo que esses resultados foram recentemente apresentados num congresso da especialidade.
      Cumprimentos

Deixa a tua opinião!

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

Information

This entry was posted on 15 Agosto 2012 by in Sociedade and tagged , , , .

Navegação

Jogadas anteriores

Fonte da imagem do cabeçalho

Jogadores

%d bloggers like this: