Baralho de Ideias

Quem ganhar uma vaza dará início à seguinte.

“Está a pensar engravidar?” Porque o problema não está na pergunta

As histórias de entrevistas de emprego em que se pergunta a uma mulher se tem filhos e/ou se está a pensar engravidar são frequentes. Inclusive, não é incomum que as promoções sejam ponderadas em função de uma participação pouco activa na vida familiar.

No entanto, a questão é verdadeiramente inconveniente? Revela uma atitude discriminatória, no mercado de trabalho, sobre o sexo feminino? Porque não é perguntado aos homens se têm ou pretendem ter filhos? Não será legítimo que as entidades empregadoras conheçam a disponibilidade profissional dos potenciais trabalhadores a curto prazo, num ambiente em que as empresas se encontram constantemente ameaçadas pelo risco de falência? A competitividade entre instituições não obriga que estas procurem preencher os seus quadros com os trabalhadores que possam oferecer os maiores contributos?

Caras senhoras, na verdade, o problema não está no entrevistador/empregador, mas nas vossas casas, nomeadamente nos vossos maridos/namorados. Nas sociedades ocidentais, as maiores desigualdades entre sexos, dentro da família, encontram-se nos países do Sul da Europa (Portugal, Itália, Grécia e Espanha). Apesar da crescente participação feminina no mercado de trabalho, as mulheres continuam a assegurar a esmagadora maioria das tarefas domésticas e de cuidados aos filhos. De resto, os dados do Instituto Nacional de Estatística são conclusivos: as mulheres residentes em território português representam 58% dos beneficiários da licença parental inicial, 83% da licença parental alargada e asseguram 91% das faltas para assistência a filhos. Este fenómeno de sobrecarga de trabalho (laboral e doméstico) é designado na investigação demográfica e social como o “Segundo Turno” (“Second Shift“) ou “Dupla Carga” (“Double Burden”). De resto, uma das principais explicações para o declínio da natalidade/fecundidade em Portugal deve-se ao facto das mulheres não pretenderem querer ter (mais) filhos, pois isso implicaria mais trabalho.

Como tal, coloque-se no lugar do empregador. Quem escolheria? Uma mulher, embora mais qualificada, desgastada física e psicologicamente ou um homem com os sonos em dia?

(Imagem: FreeDigitalPhotos.net)

About David Cruz

Demógrafo no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa.

2 comments on ““Está a pensar engravidar?” Porque o problema não está na pergunta

  1. TANIA SARAIVA
    11 Julho 2012

    Olá Fábio!

    Apesar de compreender bem o teu ponto de vista, considero que a pergunta que se deve colocar não é “Quem escolheria? Uma mulher, embora mais qualificada, desgastada física e psicologicamente ou um homem com os sonos em dia?”, mas sim: As mulheres não deveriam começar a impor mais responsabilidade nos maridos/namorados? Não deveriam também eles terem faltas por assistência à família?

    Infelizmente, em Portugal ainda há muito a “cultura” de que as mulheres é que devem cuidar dos filhos e faltar em caso de doença ou problemas na escola, mas o que eu considero importante reforçar (principalmente às mulheres) é que eles (os homens) também podem e devem faltar pelos filhos!!!

    Em relação aos valores que apresentas, há que ter em conta que em Portugal (ou países do sul) a atitude dos empregadores é: está em idade de engravidar, isto vai-nos custar dinheiro e tempo. Mas nos países nórdicos, os empregadores pensam em facilitar a vida das mulheres e a maioria das empresas dispõe de infantários, refeitórios, etc. no sentido de as mães estarem por perto e não precisarem stressar cada vez que têm uma reunião ao final do dia ou quando precisam de amamentar os filhos.

    Temos de pensar um pouco “fora da box” e evoluir, já está na hora de diminuir a discriminação papel da mulher/homem na sociedade!!!

    Tânia Saraiva

    • F. David Cruz
      12 Julho 2012

      Olá Mafalda (Tânia)!
      Julgo que não compete às mulheres a educação dos maridos/namorados. Aliás, já basta a educação dos filhos. Muitas delas já se impõem ao rejeitarem terem (mais) filhos ou evitando relacionamentos estáveis. A iniciativa terá que surgir da parte dos homens. São mudanças que levarão o seu tempo. A pergunta que coloquei no final do artigo procura consciencializar as mulheres de que as desigualdades domésticas acabam por extravasar as portas de casa, originando outros problemas e dificuldades, nomeadamente na vida profissional.
      Quanto aos países nórdicos, são, de facto, um excelente exemplo. Têm acesso facilitado aos infantários como referes, mas têm, acima de tudo, igualdade de género dentro da família. Não creio que os empregadores desses países sejam mais compreensivos do que os portugueses. Simplesmente sabem que as mulheres apresentam-se no mercado de trabalho em igualdade de circunstâncias com os homens.

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This entry was posted on 11 Julho 2012 by in Sociedade and tagged , , , .

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